Embora já sem dor...
Lembro que ela cantava baixinho no meu ouvido um trecho: "you're the reason I'm leaving (Leaving alone) If I'm leaving we don't stop livin', you know..." enquanto me abraçava e chorava. Lá fora, as gotas de chuva aumentavam a cada minuto. Frio bom de se dormir abraçada. Eu tinha vontade de abraçá-la, na mesma medida que queria sumir daquele quarto de hotel, daquela cidade, do país. Eu não me sentia bem. Ela segurava minha mão e colocava em volta do seu corpo, colocava o fone do Ipod no meu ouvido e aumentava: "eu lembro de você com essa música". Super bacana saber disso, eu sou a razão pela qual você está partindo... Eu sempre soube que eu era essa razão.
Doía mais do que qualquer outra dor já experimentada antes. Doía mais do que quando aos 11 anos tentara voar da galho mais alto da árvore do quintal e se chocou violentamente em cima de tijolos ao cair no chão. Doía mais que aquele tampão arrancado do dedão aos quatro anos na escada da escolinha, ou o copo de vidro enfiado no pé com essa mesma idade. Era uma dor que não poderia se explicar: misto de desespero com não-tem-nome-pra-isso.
Eu escutava a música muda, claro. Não conseguia reagir aquilo.
Adorava-a. Cada pedaço. Cada centímetro de seu corpo. Cada palavra pensada que saia daquela boca. Seu jeito de se movimentar, seu jeito de falar, seu sotaque, suas manias, seus valores. Seus porquês. Principalmente seus porquês. Passava horas tentando descobrir mais e mais sobre ela. Era um jogo fascinante descobrí-la. Deixar encantar-se. Arrancar sorrisos. Ai, os sorrisos dela. Quantas vezes me embebedei de seus sorrisos e compus versos, cartas, poemas. Teria escrito uma novela toda de sua história. Teria reinventado seu mundo.
Vivia de incertezas. Não havia mais segurança em se falar o que pensava realmente. De agir naturalmente. O medo era enorme. Por esse motivo mantinha-me imóvel, muda, com olhos esbugalhados e tristes. E se perdesse? Pensar em perdê-la parecia pior que ser apedrejada em praça pública.
O romantismo não me deixava ver que tudo que poderia ser feito já havia sido feito. Havíamos vivido uma estória perfeita. E como todas com começo, meio e transformação. Sim, transformação. O amor carnal acabou, o amor ciumento, obsessivo. Nasceu algo tão mais lindo disso. Mas ainda não enxergava de tal forma. Claro, anos depois é fácil entender cada noite mal dormida, cada lágrima derramada, cada "e se..". Ela era única e ainda é, obviamente. Cada pessoa que passou também foi e a cada uma reservei um amor. Amor não acaba. Pode mudar, diminuir, aumentar, mas não acaba. Não quando realmente te tocou, fez parte da sua trajetória para ser o que é hoje. Eu tenho muito orgulho de cada vez que me entreguei e me deixei viver, sentir, mudar. Amar. Sentí-me viva a cada vez que toquei outro corpo com sentimento ou deixei-me ser tocada, usada, amada, rejeitada.
Mas naquele momento só queria sumir, parar de sentir esse algo-sem-nome. Era muito forte. Era pesado. Juntava-se a várias situações mal explicadas. A possibilidade de que ela desejasse com outra pessoa o que eu desejava com ela, não conseguia parar de pensar nisso. Parece loucura, não? Eu também acho. Hoje eu acho. Mas no alge daquele sentimento não era assim, não sei, parece que não conseguia pensar racionalmente. Só imaginava momentos românticos, final feliz de contos de fada. Ela dizendo: "eu largo tudo por você" como um dia havia dito. Um dia. Matamos todo o presente nessa saudade imensa do passado. Essa nostalgia. Amanhã, esse momento que estou escrevendo agora será passado. E aí? Anulamos metade da nossa vida chorando leites derramados. Ontem, semana passada, aquele dia. E se? Nada me irrita mais que 'E se...?' E se é o hino dos covardes. E se não é suficiente pra arriscar, pra viver. Só serve pra lamentar.. É mais vazio que o próprio vazio. Cada vazio que carrego em mim tem algo. Sério, se hoje sei que lá está vazio é porque um dia já esteve preenchido. E se nunca esteve pelo menos nesse vazio há a falta. No 'e se' não há arrependimento, não há resposta, não há lembrança. Há uma dúvida apenas. Uma dúvida que não muda nada. Perda de tempo. Ridículo.
Mais um texto sem final...
Lembro que ela cantava baixinho no meu ouvido um trecho: "you're the reason I'm leaving (Leaving alone) If I'm leaving we don't stop livin', you know..." enquanto me abraçava e chorava. Lá fora, as gotas de chuva aumentavam a cada minuto. Frio bom de se dormir abraçada. Eu tinha vontade de abraçá-la, na mesma medida que queria sumir daquele quarto de hotel, daquela cidade, do país. Eu não me sentia bem. Ela segurava minha mão e colocava em volta do seu corpo, colocava o fone do Ipod no meu ouvido e aumentava: "eu lembro de você com essa música". Super bacana saber disso, eu sou a razão pela qual você está partindo... Eu sempre soube que eu era essa razão.
Doía mais do que qualquer outra dor já experimentada antes. Doía mais do que quando aos 11 anos tentara voar da galho mais alto da árvore do quintal e se chocou violentamente em cima de tijolos ao cair no chão. Doía mais que aquele tampão arrancado do dedão aos quatro anos na escada da escolinha, ou o copo de vidro enfiado no pé com essa mesma idade. Era uma dor que não poderia se explicar: misto de desespero com não-tem-nome-pra-isso.
Eu escutava a música muda, claro. Não conseguia reagir aquilo.
Adorava-a. Cada pedaço. Cada centímetro de seu corpo. Cada palavra pensada que saia daquela boca. Seu jeito de se movimentar, seu jeito de falar, seu sotaque, suas manias, seus valores. Seus porquês. Principalmente seus porquês. Passava horas tentando descobrir mais e mais sobre ela. Era um jogo fascinante descobrí-la. Deixar encantar-se. Arrancar sorrisos. Ai, os sorrisos dela. Quantas vezes me embebedei de seus sorrisos e compus versos, cartas, poemas. Teria escrito uma novela toda de sua história. Teria reinventado seu mundo.
Vivia de incertezas. Não havia mais segurança em se falar o que pensava realmente. De agir naturalmente. O medo era enorme. Por esse motivo mantinha-me imóvel, muda, com olhos esbugalhados e tristes. E se perdesse? Pensar em perdê-la parecia pior que ser apedrejada em praça pública.
O romantismo não me deixava ver que tudo que poderia ser feito já havia sido feito. Havíamos vivido uma estória perfeita. E como todas com começo, meio e transformação. Sim, transformação. O amor carnal acabou, o amor ciumento, obsessivo. Nasceu algo tão mais lindo disso. Mas ainda não enxergava de tal forma. Claro, anos depois é fácil entender cada noite mal dormida, cada lágrima derramada, cada "e se..". Ela era única e ainda é, obviamente. Cada pessoa que passou também foi e a cada uma reservei um amor. Amor não acaba. Pode mudar, diminuir, aumentar, mas não acaba. Não quando realmente te tocou, fez parte da sua trajetória para ser o que é hoje. Eu tenho muito orgulho de cada vez que me entreguei e me deixei viver, sentir, mudar. Amar. Sentí-me viva a cada vez que toquei outro corpo com sentimento ou deixei-me ser tocada, usada, amada, rejeitada.
Mas naquele momento só queria sumir, parar de sentir esse algo-sem-nome. Era muito forte. Era pesado. Juntava-se a várias situações mal explicadas. A possibilidade de que ela desejasse com outra pessoa o que eu desejava com ela, não conseguia parar de pensar nisso. Parece loucura, não? Eu também acho. Hoje eu acho. Mas no alge daquele sentimento não era assim, não sei, parece que não conseguia pensar racionalmente. Só imaginava momentos românticos, final feliz de contos de fada. Ela dizendo: "eu largo tudo por você" como um dia havia dito. Um dia. Matamos todo o presente nessa saudade imensa do passado. Essa nostalgia. Amanhã, esse momento que estou escrevendo agora será passado. E aí? Anulamos metade da nossa vida chorando leites derramados. Ontem, semana passada, aquele dia. E se? Nada me irrita mais que 'E se...?' E se é o hino dos covardes. E se não é suficiente pra arriscar, pra viver. Só serve pra lamentar.. É mais vazio que o próprio vazio. Cada vazio que carrego em mim tem algo. Sério, se hoje sei que lá está vazio é porque um dia já esteve preenchido. E se nunca esteve pelo menos nesse vazio há a falta. No 'e se' não há arrependimento, não há resposta, não há lembrança. Há uma dúvida apenas. Uma dúvida que não muda nada. Perda de tempo. Ridículo.
Mais um texto sem final...
0 comentários:
Postar um comentário